domingo, 26 de dezembro de 2010

Essência


São somente sementes de letargia
Enterradas, encravadas nessa sequidão.
Que a lama de Minh ‘alma refugia
Em sua imensa e eterna contradição

Flores involucras em capsulas concernentes
Nutridas pelo vão da sinceridade.
Amentadas no seio da serpente.
Regadas pela inóspita maldade

Imagens mortais e sedutoras em cerne
Atiçam os olhos ao desejo e ardor
Em seus lábios de desgoverne
A moral deflora e amolga o amor

Surtindo em mim a essência do ser
Que a alma expurga na tempestade
Um elo perdido, a verdade.
Na face da flor veio a perecer.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Pedras Lacrimejantes


As cores dos olhos vibram no desejo. Turmalinas, esmeraldas e opalas, todas joias moldadas para atender ao lindo quadro envoltório, o rosto. Estamos aprisionados a uma corrente dourada, que se intercala por vontade própria em nosso pulso e o consome, solidificando-se com uma marca única, o medo. Somente pedras fortes o farão se desmantelar.
Precisamos deixar nossos olhos polidos e esmaltados, com cores sobreas e vindouras. Carecemos deixar que o brilho escape, seja capitado e adorado por quem esteja ao redor. Há um débito impagável com nossa alma cativa, de deixa-la livre para inspirar o ar eloquente e deixar-se contaminar pela displicência, de não ser apenas ser e aprender a essência.
Há tantos anseios, tantos desejos e simplesmente nos deixamos por eles aprisionar. Estamos todos em uma ilha de espelhos, que iludem a alma e a faz prantear, lançando-se no abismo da loucura e afogando-se sem mar.
As pedras que herdamos, são singelas e simplórias, e necessitam que haja mãos hábeis que as possam lapidar. Não tomarão forma de luz, de dor ou de indecência. Sequer abrir-se-ão depressões, nostalgias e tristezas. Jamais cobiçarão além do anonimato, da avidez e da grandeza. Estabelecer-se-ão com rastros, pegadas alheias. Não se pode seguir, ou prever nem ao menos torna-la absoluta, como riscos do mármore.
Essas joias são preciosíssimas, e cada um possui a sua. Adquiri-las é um dom e abençoado seja quem as doa e recebe. Quando marejadas expurgam a maldade, atropelam a malícia e fazem nascer seu próprio Reino. O lugar onde se vive da maneira mais eficaz, onde se perder entre os sonhos trás a alma alegrias e paz.
Não são as janelas da alma, são a própria. Concentra em seu cerne o deleitoso dever de deixar-se ler, de transmitir o que está oculto e transparecer o que o corpo clama. O maior arguto que delas provém, derrama existência, encharca a terra onde os pés sobrevêm. Em sua humilde presença transpira o calor, que pode matar em afogamento e tormento com uma piscadela de amor.
A perfeição permanece em sua clausura, em algum lugar intangível. Todavia criara súditos, com os mais diversos extintos. Guardiãs de sonhos e tristezas, intransponíveis, indecifráveis, enlouquecedores e amáveis. Um código escrito na língua do encanto e que canto nenhum quebrará. Os libertadores de qualquer alma aprisionada. Somente os olhos são capazes de chorar.
O líquido salgado e esplendoroso é a mente um confisco, de que as pedras pertencem a seres, que respiram, vivem e sabem que por meio delas podem o mundo exaltar. Pedras que nos fazem humanos e induz o sangue a pulsar.

Dois Princípios


Desprendo o corpo no precipício,
Não é argumento ou saída, o que se chama suicídio.
Jamais depredaria minha própria lama ao ponto
De matar-me por desejo ou consagrar-me santo.

Depois de noites na agonia e no relento
Descubro-me vivo por um intento
Uma simples linha traçada com rigor,
Que separa em minha vida: o real e o estupor.

A simples presença acalentadora
Insana busca em uma existência predadora.
Algum ser ensandecido á procura do ensejo
Cujo lhe foi entregue o ar e tomado o desejo.

O choro na noite aflora
Na flora da densa floresta afora
Um animal enclausurado na dor
Dois princípios tão inversos e de tamanho ardor.

O real é a maldade, comungada ao amanhecer.
Que é convertida em bonança logo ao entardecer
O calor que sol desposa, é inflamar e ver-se sonho,
A realidade transfigura-nos, vejo-me como estranho.

Estupor de minha história! Tomastes minhas dores?
Sequer pensei eu, em perder-me por amores.
Tu bem sabes que o anseio, como o pó deleita ao vento.
Aprisiona-me em teu Reino da Fantasia e será meu melhor invento.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma Noite de Hamlet


A folha ao vento, dispersa-se no ar.

Sentiu o medo de ser livre,
Perde-se e jamais retornar.

Estava preso ao sonho, queria poder sorrir.
No âmago, sorrateiramente, acalentava
A ira do céu e do porvir.

Não possuía a alma
Subjugara-se sem pudor
Em um alamedo repousava a calma
De um anjo sem esplendor.

Desperta-te ser dormente .
Lança tua vista ao viver,
Liberta-te ao mar do bel-prazer.
Da clausura que aprisiona tua mente,
Onde travas a luta entre o ser e não ser.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Ponderação Noturna


Refletir, ousar e viver.
Converter o pranto em riso,
Amar com alegria e siso.
Saber o momento de encontrar e perder.
Tudo seria simples, se houvesse em minha mão,
Uma seta, uma placa, que indicasse a direção.
Eu vos diria – sem ceder ao medo
Não importo-me com o futuro, ele virá tarde ou cedo.

sábado, 27 de novembro de 2010

Carta do Guerreiro


Registrei-me uma carta
Enviei-a de Atenas à Esparta.
O melhor carteiro a transportou
Era o vento. O vento levou.

Sorri por dentro de minha armadura.
Eu era o guerreiro da amargura.
Com espadas lacrimejantes
Peito aflito, amor distante.

O selo de nossa história
Em muitas lutas perpassou
O amor construído de glória
A melhor melodia que ressoou.

Naquela carta jamais lida
Confessei minha perjura
Amei-te durante toda vida
Morrei por ti, com bravura.

Haicai


Céu de noite
Um véu de vida no ar
Frescor do amor

A Real Verdade


Vejo a vida com olhos vivos
Olhos que sentem e que falam.
Vejo a vida com olhos ansiosos
Olhos que desejam e calam.

Possuo no mundo motivos para avidez
Seres que me transmitem a sensatez
Possuo no mundo mil corações
Que surgem em diversas ocasiões

Conheço tantos sentimentos e emoções
Partilho tantas vitórias e realizações
Conheço cada dia uma nova face do mundo
Partilho todo instante o conhecimento oriundo

Aprendi que posso mostrar-me, sem medo.
Aprendi que posso apoiar-me em um rochedo
Compreendo hoje a real verdade.
Jamais haverá no mundo, algo mais puro que a amizade.

domingo, 21 de novembro de 2010

Meu Eu - Homenagem a José Saramago


Não sou flor que abrolha no quintal de casa;
Apenas, peixe que nasce em mar de ressaca,
Pássaro que voa no temporal,
O sol da meia noite, a aurora boreal.

Um oásis que surge em meio ao deserto
Estou longe, mesmo quando estou perto.
O choro que brota no carnaval,
O riso que escapa no funeral.

A negação de mim mesmo
O bem e o mal – o humano animal.
Que procura pela vida á esmo
E encontra o final – a fonte vital.

Um livro sem história.
A palavra sem tradução.
Um reino alheio à escória.
A sentença e a salvação.

A glória, o medo e raiz.
Um rosto, o selo e milagre.
A dor, a cura o vinagre.
O advogado, o réu e o juiz.

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.
Ensaio Sobre a Cegueira;José Saramago

sábado, 20 de novembro de 2010

Pensador


De tristeza em tristeza
Acresci a sutileza,
Pouco choro, pouco vivo.
Muito sonho e realizo.
Pensei mil vezes sobre amor,
Em todas mil fui malfeitor;
Se pensasse doutro jeito
Certamente sou mal sujeito
Certamente sou Pensador.
Liberdades libertinas
O amor desvenda e desatina,
Atado aos seus cordões
Devaneio em dimensões
Sou de tantos pensamentos
Alma astuta e olhos atentos.

De tristeza em tristeza
Acresci a esperteza,
Pouco choro, pouco vivo.
Muito absorvo e incentivo.
Pensei mil vezes no ódio
Todas mil do açúcar ao sódio
E se pensasse doutro jeito,
No ódio e amor de meu peito
Mereceria seu respeito?
Tu que ouves e que lê
A quem venho eu dizer;
Se, discorda do escritor.
No amor e ódio se seu peito,
Certamente é mal sujeito
Certamente é Pensador.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Inverno


Na face ardem todas as estações,
Nos lábios sorriso e inúmeras canções.
Eu sou o sol. O verão é minha alma, minha [unção.]

Em meu céu há nuvens, de algodão.
A brisa sopra forte, espalhando a imaginação.
As estrelas são apenas astros, no palco da [emoção.]

Corro em direção à vida, com fios de esperança.
De que serviria ter o mundo, sem a alma de criança.
Descobri-me ser um invento, de grandiosa proporção.
Com mais audácia que o vento, que enfrenta um furacão.

Dentro de meu ser há um inverno, coagindo com o verão.
Nos outonos de minha vida, poucas folhas deitaram-se ao chão.
A primavera é a primazia que salda minha aflição.
O verão é minha alma, ser o sol, minha tentação.

domingo, 14 de novembro de 2010

Guerra


Avante prevejo outra grande construção
A morte da liberdade e o fim da canção.
Sigo caminhando, sem sentir o chão.
Em vida, há formas, ou será imaginação?

O medo traça a Constituição de um novo mundo
Cidadãos escoltem as leis, e levantem muros.
Professem a mentira de lares seguros;
De fortalezas e prisões, circundo.

As placas e os sinais, uma vida tão distante.
Marcas de sangramentos, receitas de coagulantes.
Punhos cerrados em grades, gritos de espanto.
As bancas são vermelhas e os jornais túmulos sacrossantos.

Prédios desmoronam, como as famílias banais.
Os escombros soterram crianças e absorvem os ais.
Tantas vidas sãs ceifadas e há presságio de muitas mais.
Estruturas abaladas, pessoas como navios sem cais.

A negra noite inunda o deserto de secas vidas.
Os olhos profundos, inseridos em um mundo que trucida.
Escravos químicos, sem algemas, vagueando sem direção.
Á esmo procuram quem lhes dê vida e arranque a maldição

Sarcófagos abrigam jovem Reis, que morreram na guerra.
Um inimigo invisível, invadindo toda Terra.
Nações sem governo, abastecidas de dor.
Corpos sem leitos, desejo deflagrador.

Descansam sob o chão frígido e lacrimejado
Sonhos de uma grande e pávida multidão;
Regados à dor, crescendo pranteados.
Nutridos pela dedicação.

Avante prevejo uma muralha imensa, a grande proteção.
Mas, o inimigo pelo qual se trava a batalha suplantou o coração.
Ela não resguardará o homem, de seu destino, de sua ignorância.
Não há o que vença quando o oponente é um desatino, cujo nome é ganância.

sábado, 13 de novembro de 2010

A Triste História de Olíria III


[O fim]
Um dia à tarde, quando andava no Pelourinho.
Encontrou-se com um moço, de terno e colarinho.
Percebeu então Olíria, que queria algo maior.
Mais alto que o Elevador Lacerda ou o Dique de Tororó

Olíria pôs perdidamente a refletir
Como obter tudo que cobiçava alcançar?
Percebeu que era bela, e podia isso usar.
Bastava apenas ser esperta e fingir

Errou. E de veras por falta de inocência
Logo isso que diziam ser, a sua essência,
Andava só, e não sabia para onde ir, onde andou.
Vivia por prazer, e vivia de querer, só querer.

Era uma doce menina, esta tal de Olíria.
A Bahia lhe ensinara, e ela sempre sorria.
Foi assim, com doçura e alegria.
Que encontrou o moço que por ela morreria.

Mas era paupérrimo, o filho de D. Francisca.
Também belo, como outro não há na Bahia.
As meninas da cidade, o adoram até quando pisca.
Todavia, para a bela Olíria, o moço nem existia.

Olíria, o lírio, vendera a alma e a pureza;
O que buscava era apenas dinheiro e riqueza.
Há... Olíria, por que tanta ganancia e tanta fraqueza?
O único amor que conhecia era à luxúria e beleza.

Então casou-se com Arlindo, que de lindo nada tinha;
Possuía poder, que provinha de jogatinas.
Vivia como rainha, e mandava por mandar.
Mas a noite, quando sozinha, sentia falta de amar.

Sentia-se incompleta, a praia sem mar.
Um choro interno e contínuo, sem uma lágrima derramar.
Ponderou e percebeu que nada mais tinha a impetrar
Chegara ao topo da vida, era hora de retornar.

A noite cobriu o céu, sem uma estrela para enfeitar.
Olíria, o lírio de Boa Esperança, retirou o anel, de seu dedo anelar.
Tomou uma pequena maleta, que Rosilda, ajudara-a preparar.
Guardou ali seus sentimentos, a solidão e o desejo de amar.

Viajou. De volta à terra que nascera para uma última missa rezar.
Na Igreja de Santa Clemência, fez sua confissão.
O padre viu-a com olhos humanos, concedeu-lhe o perdão.
Poderia agora morrer, para enfim descansar.

De fato Olívia viveu muitos verões a se contar.
Voltou a ser Olíria de Boa Esperança, que olhos fazia brilhar.
E quando partiu da vida, levou com sigo a experiência.
De ser santa e humana, agora é chamada Santíssima Olíria Clemência.

A Triste História de Olíria II


[A fuga]
Era uma doce menina, esta tal de Olíria.
Apenas alguém discordava, D. Maria.
Uma senhora mestiça, afeiçoada pela feitiçaria.
Que dizia ver em Olíria Clemência, arrelia.

Olíria mal suspeitava, que fora descoberta
E que traria tanta tristeza, para mãe Alberta.
Olíria mal suspeitava, do que viria a seguir.
Encontrara enfim um jeito de fugir;

Seu Agripino, um velhote leviano.
Propusera um acordo, que mais parecia um engano.
Levaria Olíria Clemência, para São Juliano.
O mais conhecido convento, daquele povo baiano.

Olíria intimidou-se a tratar com o senhor
Mas sabia que precisava de um bom logrador
Alguém que ajudasse a escapar do terror
Que estivesse disposto a leva-la à Salvador.

Quando a noite virou dia
Olíria levantou-se, e nada houve de gritaria
Mal se despediu da família, coração acelerado do peito fugia.
Era tanta sede de vida, que nenhum um obstáculo saciaria.

E quando o lírio de Boa Esperança passou pela cidadela
Viam-se olhos tristes de meninos, que choravam na janela.
Na Igreja de Santa Clemência, todos clamavam por ela.
Vai-se ao longe Olíria, a alma pura e a moça bela.

Olíria não queria ser santa, nem tão pouco era.
Queria mesmo ser feliz, viver em outra esfera;
Iria prostrar-se em um altar da luxúria
Ninguém a veria como um anjo de alma pura.

O lírio de Boa Esperança deflorara sem amor
Perdera o aroma suave, deixara de ser flor.
Os campos quais percorria, traziam-lhe vigor.
Sentia-se filha da terra, amante de Salvador.

Não havia mais Olíria Clemência
Somente a Baía de Todos os Santos.
Que a presenteavam, cada um com seu manto.
Junto á liberdade perdeu-se santidade, perdeu-se a inocência.

O toque do ar, a água e o povo;
Tudo era belo, tudo era novo.
Nada de Santa Clemência ou de Antenor
Cada dia que vivia era melhor que o anterior.

A Triste História de Olíria I


[A apresentação]
Era uma doce menina, esta tal de Olíria.
Pequena em estatura, repleta de formosura.
Pensava grande, mais alto que a colina Escura.
Lá da cidadela que residia, encantadora era Olíria.

O pai, homem ferrenho e pouco acalentador.
Nada possuía na vida e perdera também o amor
Era fiel, vigoroso e muito trabalhador.
Como tal homem no mundo, jamais viu-se outro Antenor

Acordava cedo e dizia:
Apresse-se menina, a noite já virou dia.
Puxava-lhe pelo braço acanhado, resmungando.
Do quarto abafado, trazia-a arrastando.

Triste vida a da menina; pobre Olíria.
No entanto a garota, da vida somente ria.
E pensava consigo mesma: Hoje sou apenas Olíria,
Um dia eu me vou e terei minha alforria.

Ah... Quanta inocência, possuía a criança.
Se soubesse ao menos regar a flor da esperança
Se soubesse ao menos, que para sua prisão na há fiança.
E que seu nome é Olíria. O lírio de Boa Esperança.

Quando a menina passava, todos se alvoroçavam.
O povo da cidadela admirava a beleza
O moço da padaria, rapidamente fazia a mesa.
Já a moças da esquina, de corpo de fora choravam.

Mal sabia Olíria, que todos a invejavam.
Queriam ser como ela, em todo seu rebolado.
Uma forma tão discreta, de mostrar o outro lado.
Aquele que sempre escondia de todos que a olhavam.

Os cidadãos de Boa Esperança admiravam a complacência
Via-se nela, a linda Olíria, tão grandiosa decência.
Que o Padre, da Igreja de Santa Clemência
Chamou para a missa rezar, e assim deu-se o nome de Olíria Clemência.

Clemência era o que pediam os rapazotes de Boa-Esperança
Que corriam para Igreja, com olhos brilhantes de criança.
Aplumados como pedia a circunstancia.
Enquanto Olíria reagia com sutileza e bonança.

O lírio de Boa Esperança era branco como o leite
O cabelo escorrido da cor de um novo azeite
Olhos de luxúrias, uma cama que não há que não deite.
Um corpo aceso, para que toda imaginação se deleite.

Olíria era a tradução do pecado em forma angelical
De seu olhar emanavam, o bem e o mal.
Dentro dela enclausurava-se o melhor carnaval.
Dentro dela enclausurava-se o anseio carnal.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A ponte


Vou caminhando, sereno e sorrindo.
Não tenho medo e nem busco abrigo.
Vou vagando – assistindo;
O mundo inteiro se acomodar.

Dobrando as suntuosas esquinas
Descobrindo o novo das vidas;
Aprendendo a ser bem-vinda
Por onde eu passar.

Nestas largas ruas esculpidas
Vou ganhando novas feridas.
Sanando aquelas antigas
Que jamais hei de encontrar.

As pontes são os melhores caminhos;
Deleito-me a ver os rios.
Silenciosos em seu aninho
Cultivando com modéstia um altar.

Eu olho para a luminosa água.
A pureza que a meus olhos salta
Uma melodia tão doce e alta,
Levando a alma á flutuar.

Aquele pitoresco obelisco.
Pelo frígido metal ereto;
Encoberto pelo concreto
Vem a todos abençoar.

Consagra qualquer um, que como eu.
Trás o mundo na memória.
Observando da ponde de glória.
A felicidade se banhar.

O Trem


Traços, riscos e pontos.
Escrevo no livro do coração
No rosto medo e espanto
Nas mãos gotas de sensação.

Olhos tão aflitos e imersos
Nas palavras soltas da imaginação.
No papel frases e versos.
As lágrimas de emoção.

Assisto o trem que parte
E retorna à estação
Ontem era cedo e hoje é tarde
Corro em busca de proteção

Um trem sem passageiros
Preenchido apenas de solidão
Pelo caminho incerto e estrangeiro
Vagueando de vagão em vagão

Tivera eu medo, de tomar essa direção!
Os caminhos que percorri, nos trilhos estão.
A vida é uma carga, sem dimensão.
Que peregrina no vale e também no sertão.

Traços, riscos e pontos.
Vão tomando proporção.
Vai-se ao longe o trem de tantos.
No vazio de sua imensidão.

A exposição


Há quem julgue a vida
Há quem dela esquive,
Pouco dela se vive
Se pouco é atrevida.

Há quem desenhe no dia,
A forma que toma à noite.
Há quem se esconderia
Se soubesse que a vida é o acoite.

Já vi tantos quadros de vida
Expostos em velhos museus
Desprezíveis em suas feridas
Esplendorosos em templos de Zeus.

Expositores tão simplórios
Quão belos seus trabalhos são!
Vencedores inglórios;
Artistas com suntuosas mãos.

Bela é a arte de desenhar,
A vida com perfeição
Está limitada a quem amar.
Mesmo, que seja de antemão.

Tais artistas de quem falo
Trazem o pincel no coração
O sague, que pulsa ralo.
È tinta da imaginação.

Não há quem possa esquecer
As obras tão vistosas
Nem há como parecer
Nesta vida majestosa

Que saiba eu do mundo
Todos somos pintores
Desenhando os amores
Em mares de arte inundo

Quadros. E mais quadros.
Expostos em paredes conspurcas
Quadros. E mais quadros.
Depostos envoltos de burcas

Quadros. Quantos quadros.
As mãos férteis produzem.
Quadros. Quantos quadros.
Onde as vidas se reproduzem.

domingo, 31 de outubro de 2010

Infância


O doce do tempo, passa ao seu sabor.
Correr ao vento, sem sofrimento.
Ser sincero e tocar o amor.
Brincar de crescer. Aprender a viver.
O sangue, o choro e o seu inventor.
Andar de mãos dadas, correr nas calçadas.
Ouvir chamar e não dar valor.
Ser inocente. Displicente, sem perder o calor.
Pular corda, de forma singela.
Aos poucos surgem portinhas e janelas.
Meninos, meninas, eles e elas.
Escrever na terra, amigos para sempre.
Recriando uma fala, para que todos se lembrem.
Quão doce é a inconstância
Quão leve e suave é a infância.
Esconde-esconde, a infelicidade.
Suba alto, veja toda cidade.
Corra rápido, atrás do seu sonho.
Pule amarelinha, sem medo de ser enfadonho.
Fazer a casinha? É ver o futuro.
Traçar uma linha, criar um muro.
Rir da roupa, que possuí um furo.
Ter na cintura, o bambolê.
Roubar a bola e gritar: Olê.
Cortar o cabelo, com as próprias mãos.
Ousar e arriscar, ouvir um sermão.
Quão amável é ser aprendiz.
Estar na escola, tocar o giz.
Ter no peito, um imenso coração.
Chorar e gritar, ao escutar não.
Rir, ao ver um curioso bichinho.
Ter medo e soluçar baixinho.
Segurar a mão, com toda força.
Passar um batom e sentir-se moça.
Olhar o pai, e desafiá-lo.
Correr atrás do sopro e não apanhá-lo.
Ser príncipe e ter um castelo.
Ser cavalheiro e lutar com um martelo.
Ver-se princesa, em um belo vestido.
Trazer nos olhos um segredo incutido.
Quão belo é viver qualquer circunstância.
Quão delicioso é viver a infância.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ruas de Lágrimas


Há um grande edifício
Abrigado em meu olhar
Não há nos rosto indícios
Nem alugueis a se cobrar

Tantas ruas já andei,
Sem ter onde morar
Muitas delas provoquei,
E outras tantas ei de causar.

Mergulhei nas moradias
Tão salobras e tão frágeis
Alimentei dia após dia
Com angústia ou risos ágeis.

Pouco se sabe destas ruas
Não preciso eu saber
O sabor que dela sobra
A dor da alma dobra
Traz um novo amanhecer.

Caminhei nelas em tantas luas
Conheço bem cada pedrinha
Observei-a quando nuas
Limpei-as sempre sozinha.

Fui um grande zelador
Sempre as tratei com todo amor
Sempre foram minhas ruas
Cada uma das duas
Cobertas de esplendor

Penso eu na noite cortante
Em que o frio açoita meu ser
O quanto são importantes
As ruas do meu viver?

Os ladrilhos que as compõe
São chamados sentimentos
Não há quem as sobrepõe
Em um momento de sofrimento

Os ladrilhos que as compõe
Tem o nome de alegria
Não há que se impõe
Ao riso que contagia

Os ladrilhos que as compõe
Tem sabor de vitória
Não há ser que não dispõe
Ruas surgidas da glória

Na noite cortante reflito
Estas ruas tão bem-vindas
Causam por vezes conflitos
Nesta vida desvalida
Onde os ladrilhos são aflitos
Perante desatinos da lida.

Na noite cortante apedrejo
O que a mim coube entender
As ruas que eu despejo
Cada uma irei colher

Lágrimas logradas do mundo
Defraudei sem perceber
Lágrimas logradas do mundo
São as ruas quais vou viver.

domingo, 3 de outubro de 2010

Coraçãozinho


Lembro quando era pequeno e a luz ficava acesa
Não tinha medo do escuro.
Queria apenas contemplar sua beleza.
Se eu ouvisse as histórias de “era uma vez”,
Não dormia na esperança de te ler no outro mês.

Cresci como exigiu e parei de crê no amor.
Foi como perder o chão e fazer frio em abril.
Viver em um rio de torpor, tudo branco em anil.
Segurei sua mão, naquele ato infantil.
Fui sua caça e o predador, o que é servido e o que serviu.

No dia que você se foi, um mal me acometeu.
Minha alma secou-se e meu rosto enrubesceu
Cada lágrima que chorei
Despejei pelo amor seu.

Sempre fora a mais bela
Outra igual na Terra não há.
Era minha cinderela
A dama por quem zelar

Sofri mil terrores, por teu rosto não avistar.
É a dona dos amores. Como ti outra não há.
Atei-me a fiel esperança
De ser ao mundo sua herança
Alguém a te representar.

Você mentiu para mim.
Disse que jamais me deixaria.
Quando estava partindo ao fim.
Percebi que para sempre me amaria.

Era o meu belo tesouro, por ti vou além.
A terra que a enterra, está também em meu coração.
Não importa o que aconteça, tenho cá, tua proteção.
Sou e sempre serei seu lindo neném.
Mãe. Sempre te amei. E sei que me amas também.

sábado, 2 de outubro de 2010

Meu Pedaçinho de Terra.


Nasci em uma terra
Onde o chão é rachado;
Os semblantes maltratados
Onde o povo vive de crer.

Na minha terra
[Que não é minha]
Todo dia tem romaria,
O padre reza a ladainha
E me dá fé para vencer.

A água que é tão rara
Mora dentro do açude.
A gente viaja de pau-de-arara
Mão cansada e peito rude.

Quando a água despeja do céu
Forma a lama bem-vinda.
A viúva retira o véu,
Em festa a noite finda

Minha terra tem passarinho
Com o peito miádo vive a cantar;
Canto este que afasta o espinho
E lembra o cheiro do mar.

A terrinha ressacada
Abriga as mãos sofridas.
Não tem remédio para ferida
Não há água fonte da vida
E comida também não há.

Os trapos que peito cobre
São finos, cosidos à mão.
Mãos tão calejadas e tão nobres
Mãos que acalentam o chão;

A única água que corre
É aquela que dos olhos caí.
Quando um dos filhos morre
Da fome que nunca saí.

Já tentei plantar de tudo,
E de tudo, nada nasceu.
Não quero sair para o mundo
Este lugar também é de Deus.
Não quero sair do mundo
Aqui é feliz o peito meu.

Os bracinhos afinados
Dos tantos filhos que Deus me deu
Todos eles foram criados,
Na terra onde o sol assola
Que é onde cada um cresceu.


Os pés livres e bem andados,
Solado nunca viu.
O chão quente e árido
Calçaram e bem serviu.

A perninha murcha;
Seca de tanto andar.
Os cabelos feitos bucha
Sem ter água para lavar.

A cor dourada que o usufruí
Não é ouro, riqueza não há.
O tesouro que possuí
É o que na terra se enterrará

Aprendi sozinho nesta terra
A fome é nossa guerra.
E não temos armas para lutar.

Aprendi sozinho nesta terra
Minha luta não se encerra.
Enquanto a morte não chegar.

Aprendi sozinho nesta terra
O que este meu peito berra.
Ninguém quer escutar.

É tanta aridez,
Falta de sensatez,
Que chega a me afogar.
Um afogamento doloroso
Nem tem meio aquoso
Que se possa constatar.

Se chorar criasse rios,
Meu sertão seria a terra
Mais rica que a serra
Onde mais água há.

Se chorar acalentasse a fome,
Dos mirrados abdomes
Meu sertão seria a terra
Que minha tristeza desferra
Onde comida há.

Aprendi sozinho nesta terra
O medo que em meu peito ferra,
È que eu morra sem vê-la prosperar.

Aprendi sozinho nesta terra
Que minha vida soterra.
A ser feliz, sem reclamar.

sábado, 25 de setembro de 2010

O artesão


Mãos ágeis e suaves.
Alentam a emoção,
Moldando com um voar de aves.
As curvas do coração

Vigilante aos detalhes
Não admite imperfeição.
Adornando com entalhes
Aprimorando com devoção.

O suor endossa-lhe a face,
É banido em vão.
Logo que o tempo perpasse
Reinará em mansidão.

O olhar se comprime,
Sopesando a criação.
Cada traço presente imprime
A arte em gratidão.

É bela! É sublime!
Esta vossa imaginação.
Jamais duvide ou subestime
A mão deste artesão.

Ele é severo e irreverente.
Obcecado por inspiração,
Acolhe o futuro, determina o presente.
Afaga em seus dedos a perfeição.

Imprevisível e intocável.
Eterno, sem extinção
Teu talento tão amável
Não permite distinção.

Vagando em devaneio
Perde-se na imensidão.
Alma celeste, espírito alheio.
Tem nos lábios a saudação

Imparcial e distante,
Óh, quão feraz é o artesão.
Ora retraído, ora avante.
Destino. O que reserva sua mão?

Eu serviçal




É a vida. A vivência.
Construindo o caminho
Não há na voz eloquência
O ensejo é sozinho.

A lida. A experiência.
Deparo-me ao vinho
O suor é a essência
Não há seda, não há linho.

É a luta. A displicência.
À procura do escaninho.
Enfadonha é a ciência
Seus desconsolos apinho.

A força. A incumbência.
Uma rosa serve-lhe o espinho.
Mãos calejadas, clemência.
Na labuta definho.

domingo, 19 de setembro de 2010

Mundo Arisco


Chuva, chuvisco.
O frescor matinal
A luva, o risco.
A notícia no jornal

A caneta, o rabisco.
De armas, o arsenal.
Amor? Sentimento prisco.
Dor? Força bilateral

Lados opostos, menisco.
Nada humano ou fraternal
A verdade confisco.
Furtiva realidade colossal.

Calo-me ou arrisco?
Atado ao bem ou mal?
Atormentado com medo trisco.
Anteparo-me ao real.

Observo e petisco.
A tragédia semanal
Uma lágrima ou um cisco?
Apenas outro fato banal.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Brumas Sociais


Admirável tormento é o reflexo do meu ser
Insano e denso, como a névoa no amanhecer.
Esbranquiçado, opondo a cegueira
Negro, revelando a barreira.

Branco, tudo é branco.
Em derradeira inclinação,
Pulso, pulso e não estanco
Céus! Que aflição.

Os olhos lacrimejando
Dói, a dor da insanidade.
A imagem deflagrando
Retorne minha alma - piedade.

Estilhaços como a bruma
Intangíveis e místicos como a frígida espuma.
Povoando meu tormento
Donde surge e prolifera este maldito sentimento!

Recolho os fragmentos, disso que me enlouquece,
Elevo-o a composições, finos traços o enriquece
Logo, estarei interrupta e calada.
O convencionalismo impedirá-me de ser alada.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Borboleta Azul


Ela baila no azul celeste
Com mansidão e delicadeza
Deixando-se levar de oeste a leste
Libertando-se com a proeza

Permite-se contemplar pelo cortiço e sarjeta
É suave, doce e gentil
Vem graciosa a bela borboleta.
Esvoaçando pelo azul anil

É verdade que pouco viverá
De fases sua vida é repleta
A morte jamais esperará.
Quer ser feliz e completa.

Esvoaça, Óh serzinho!
Deixe seu rastro de ternura
Traceje seu próprio caminho
Deite a vida á quem procura.

A criança enche os olhinhos
Quando vê a borboleta
_Mamãe, olha o bichinho.
Grita alto o espoleta.

Antes, na outra face
Ninguém queria tocá-la
Se no casulo a encontrasse
Iria cruelmente matá-la.

Ela transformou-se ligeiramente
Possuí uma esplendorosa beleza
Que se desprende confiantemente
Esbanjando alegria e leveza.

Pousada na flor
Abre as asas enamoradas
Contemplando com amor
A perfeição enfileirada

O animalzinho encantado
Alça um voo incolor
O presente que lhe foi dado
Chegou ao fim, sem nenhuma dor.

Erros. Tentativas. Mortes. Afogamentos.


Vou caminhando de vagar
Os pés bem presos ao chão
Quisera tanto poder voar
Sentir no corpo a emoção.

Fui podada como a flor
Da maneira mais cruel
Também regada com amor
Adoçada com mel.

Lamentei por demais
Chorei por dor e aflição
Deixei morar em mim tantos ais
Que encobriram minha visão

Permiti-me soterrar
Ter meu destino violado
Quis privar-me de errar
Tornei meu espírito calado.

Lancei-me no precipício
Lacrei-me no meu interior
Afugentei qualquer indício
De aconchego e calor.

Errei. Da maneira mais inocente.
Tentei. E falhei em detrimento.
Matei-me. De uma forma irreverente.
Afoguei. Acolhendo o sofrimento.

Chorei. Como a doce criança.
Permiti. Que ditassem meu ser.
Brinquei. Com a fé e esperança.
Lapidei-me. Para enfim crescer.

A maturidade trouxe-me novos olhos
Vejo como um jovem ancião
Todas as gotículas desse abrolho
Ensinaram-me uma lição.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"A felicidade é a maior necessidade e a melhor recompensa."
Thaís Milani

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Areia Movediça


Passos lentos e vadios.
Deixo impressos no chão
Pés cansados, contudo sadios
Apontando minha direção

A fina areia molhada
Embevece minha emoção
Entre os dedos, perpassada.
Desprende a suave canção

Ouço as ondas imponentes
Alcançando meus passos,
Apagando eternamente.
Os momentos já escassos

Os pés são levados
Ao fundo do mar audaz.
Vou perdendo meu passado
A lembrança é fugaz.

A brisa toca minha face
Banha as lágrimas sem cessar;
Enriqueço o disfarce
Intentando não se deixar notar.

Não consigo me conter
E detenho-me bruscamente
É preciso desfazer
Retirar o elo da corrente;

É justo ao meu ser
Encontrar o esquecimento?
Poderia eu viver,
No asco de tal julgamento.

Compreendo a frigidez
Presente em tal ato.
É insana a acidez
Que compõe nosso abstrato.

Sopeso o infinito mar
Com cólera na consciência
Jamais poderei frear
O fim de minha existência.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Rua da Finitude


Trago na face traços
Maculas da vivência;
Nos enfadonhos braços
O peso da vida é uma incumbência.

Trago nos olhos paciência
Digna do ser senil.
Olhos densos de experiência
Distantes do vigor juvenil.

Marcas profundas e esguias
Povoam o rosto de plenitude
Surgindo todos os dias
Moradoras da Rua Finitude.

Sua moradia simplória
Distante de qualquer glória.
Encontra-se ao fim da Rua.
Além da casa dos 80, flutua.

A encolhida serenidade
Repousa na alma anciã
Coberta de liberdade
Acrescida toda manhã

Acolho no peito a vida
Outrora repleta de esplendor
O desgaste da lida
Substituiu-a por um doce amor

Tempo como és doce.
Se amargo fosse
Cessaria de provar.

Tempo como és breve.
Corres de leve
Sem nada espreitar.

Aprendi! Amiga Hora.
Se não viver o agora
Nada há de restar

As maculas em mim remanescentes
Formam caminhos serenamente
Todos prontos a trilhar

As mãos enrugadas de sabedoria
Refletem a alegria
De quem tem a ensinar

A tal envelhecida alma
Florescida de calma
Vê sutilmente o fim se aproximar.

Compreendo em meu reflexo
O momento tão complexo
Não tardará chegar.

Como flor colhida da terra.
A existência se encerra
Quando o exausto coração estancar.

domingo, 15 de agosto de 2010

"Não deixe que os medos sejam seus melhores amigos. No entanto conheça-os a ponto de neutralizá-los"
Thaís Milani

sábado, 14 de agosto de 2010

De Mão em Mão


Lendárias mãos
Pequeninas e fechadas
Rechonchudas e desajeitadas
Espalmadas no chão

Estampam inúmeros sentimentos
Alegria ou detrimento
Raiva ou consternação
Quão sofridas e calejadas, são algumas mãos.

Curtinhas e arredondadas.
Das crianças brincando nas ruas
Fininhas e desgastadas
Rosadas,negras e pálidas, todas nuas.

Mãos requerem cuidados,
Necessita-se mantê-las limpinhas.
O tal órgão estimado
Jamais deve sair da linha.

Marcadas com furtos e assassinatos
Juntam-se infantis, na clemência do perdão
Reflexo hábil e nato
Que oferece galardão.

São carinhosas e meigas
Austeras e leigas
Firmes e fortes
Lidas com azar ou sorte.

Mãos são o contato
Da alma com nosso ato
Senis conselheiras
Esquecidas às eiras

Mãos são únicas
Ventem-nos como túnicas
Seus caminhos, quantos são!
Filetes de suor que radiam emoção.

Decoradas com unhas expressivas
Tantas vezes corroídas
Estão a nós passivas
No intento da saída.

Mãos, muito te precisamos
Ao labuto te lançamos
Esquecendo a afeição.
Sendo tu tão generosa, há de dar-nos redenção.

Mãozinhas carentes e geladas
Aprendendo tão pequenas
A amar e sem serem amadas
Óh! Que falta faz Atenas.

Mãos são a extensão d’alma
Repletas de fadiga e a calma
Como as de um ancião
Severas em suas rugas, que ostentam mansidão.

Mãos joviais e alertas
Destrancam portas, velozes e espertas
Para livres caminhar
Na juventude pensam que tudo podem alcançar.

Mãos! Como são julgadas.
Por muitos, abandonadas
Em ausência de oração
São necessárias? Óh!Como são.

Mãos de honestidade
Mãos de dedicação
Mãos de castidade
Mãos de doação

Os dedos são vielas
Se interando a calçada
Pelas ondas presentes nelas
Nossas vidas são marcadas

A mão é um presente dado
Para um ser abençoado
Oferecer a gratidão
Extirpando a dor, em troca da boa ação.

Dádiva


A ilusão do sonho
Surge-nos á grande ganho
Inflama n’alma o amor.

É como ave que paira no céu
Sem cessar
Flor que desabrocha no chapéu
Jamais irá retornar
Água que declina do véu
Vindo á terra reinar
Amargo como o fel
Doce como o luar

A ilusão do sonho
Afaga em mim a dor
Em seu desvairado banho
Assolar-me de esplendor
Inflama o corpo ao amor.

Como tinta e papel,
No risco sonhador
Dedo e anel,
Na beleza e torpor
Abelha e mel,
Alimento e criador.

Sonho! Como me modificas.
Agrega valores, edificas
Dá benção ao sofredor.
Teu lampejo extirpador
Recolhe a alma descrente.
Devolve a nossa gente
O caráter de vencedor.

Sonho! É tu dádiva.
Para a multidão pávida
Que o medo criou.
A luz que reprime as trevas.
Dos inúmeros Adões e Evas,
Homens imprudentes, que a terra formou.

Vejo longínqua a semente.
Crescendo em nossa mente
De futuro e menos dor.
Sorrio alegremente
Vendo que em nossa gente
Retorna ao peito o amor.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Segredo


Mudei. Sinto-me diferente
De forma inconsequente
Afoguei-me neste mar.

Não sou mais tão inocente
Com certeza, menos descrente
Aos poucos entendi o que é amar.

Ouço pacientemente
Guardo tudo em minha mente.
Penso antes de falar

Fui crescendo lentamente
Hoje sou flor, não semente
Vejo o mundo me regar.

Emociono-me facilmente.
O riso surge habitualmente
Aprendi a chorar

Não me sinto experiente.
Reconheço abertamente
Conhecimento se adquire caminhando de vagar

Canto alegremente
Observo passivamente
Ávida por me encontrar.

Deparei com tanta gente
Anjos e serpentes.
De forma ou outra me levaram a aquilatar

Engraçada e sorridente
É a vida, indecente.
Que me coagiram a levar

Diziam-me astutamente
Para viver inteiramente
Devia aprender a ganhar

Entendi, sem ser displicente.
A felicidade chega sorrateiramente
Quando não se esperar

Vivo decentemente
Estilhacei todas as correntes.
Elos que tencionavam me acuar

Aprendi livremente
O segredo é simplesmente
Esquecer de ODIAR.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Alma Noturna


Espero embevecida, pelo manto escuro
Deleitar-me em teu frescor
Aventurar-me em teu enduro
Sentir, em minha face tocando, o pávido torpor.

Perante teus olhos, deitar-me nua
Lançada a pluma, à face da lua
Entrelaçada em teus insanos ares
Correntes dispersas dos sete mares

O lábio doce e sombrio
Imprime desejo e frio
Rompe em meu seio o calor
Aufere da minh’alma o amor

Sob uivos constantes e sublimes do vento
Anseio-te sem temor
Entre o prostíbulo e o convento.
Entre o profano e a dor.

Sou como a ave silvestre
Que sobre tua aura mestre
Alça um voo indolor
Pintaria a alma celeste, como um quadro sem cor.

Óh!Faceta negra, que condena-me a anseios
Encontrei em ti mil meios
De partilhar o estupor
Falta-me atingir o ápice, amado sonhador

Noite cálida e suntuosa
Servida de espinho e rosa.
Úmida de esplendor
Libertas-me da clausura, que aprisiona meu interior.

Meu peito estremece aflito
Resolves por mim tal conflito
Que emerge ao fim do dia
E submerge-me em agonia

Preciso romper o fio
Perigoso como um pavio
E enfim me libertar
Da tormenta que surge ameaçadora, assim que a lua no céu hastear.

Pronome Possessivo


“Meu” é tão furtivo
Infortúnio e tempestivo
Que a mim causa mal estar

Posse não existe
A menos que seja triste
E queira tudo vos pleitear

Entendas companheiro
Ter algo por inteiro
Não se deves desejar

O apropriado é ter se "meio"
Onde podes em devaneio
Outro se adicionar

A verdade é que queremos
E jamais entenderemos
Chamar alguém de “minha” o intento é dominar

Declamando em doce timbre
O sentido de ser livre
É poder ir e voltar

Quando se tem anseio
Não sustenta no peito o “meio”
E “minha” se quer usar

De fato admito
No tom baixo de adito
No fim desejamos
Ouvir alguém que amamos
“Meu” sussurrar

Em toda contradição
A verdadeira lição
Vivemos em conflito
Com o coração aflito
Em medo de se doar

Enfim compreendo
Com o peito enfastiado ardendo
Tudo que mais desejo
É ter na vida um ensejo
Para um pronome possessivo usar.

sábado, 7 de agosto de 2010

Poema Escrito na Chuva


Ping-Ping! ... A goteira declama
Dois corpos dançando na cama.
Plock- Plock! ... Contra janela
Silenciosa água descendo a ruela.

A criança brinca, rolando na lama
_Logo para casa! A mãe é quem chama.
Pulando as poçinhas vem o levado
Plick-Plick! ... É o barulho causado.

O casal enamora vendo a chuva reinar
Respinga no peito, a tamborilar
A roupa encharcada de tanto amor
Plof! ... Explode em beijinho o ardor.

O velho observa da cadeira em balanço
A flor se abrindo, encanto e danço.
No banho deleita-se a bela florzinha
Oh! ... Grita admirada a vizinha.

O pássaro acolhe-a em sua penugem
Avista de longe novas gotas que surgem
Rohf-Rohf! ...Sacode as visitas
Piu-Piu! ... Canta-as bem vistas.

Chuá-Chuá a chuva liberta-se
Subindo nos ares, enfim eleva-se
O sol retorna, em brilho majestoso
Sugando a água ao céu caloroso

Sem nenhum ruído
As gotículas vão subindo
No céu irão morar.
Mas logo logo, á terra irão retornar

Chuá-Chuá;Chuá-Chuá;Chuá-Chuá
No céu irão morar
Chuá-Chuá;Chuá-Chuá;Chuá-Chuá
Á terra irão retornar

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Deleite em Devaneio


Quero o cálice e me embebedar
Quero dar fim a futilidades e me libertar
Ser como a nuvem, que ama o sol
Ser como a isca, que odeia o anzol

Partilhar insanidades com o bêbado da esquina
Encontrar moralidade em uma jogatina
Esquecer os convencionalismos, ser eu de verdade.
Perde-me em agonia, para provar a vaidade

Busco resposta em uma fenda sem fim
Aprendo aos poucos, que viver é assim
À procura eterna de algo inumado
Por mais que se escave jamais é encontrado.

Provar da loucura e em faces febris
Deixar que o delírio torne-nos sutis
Sentir que o sangue pulsa arduamente
Forçar que os sentimentos aflorem na mente

Ter tudo em mãos e de repente perder
Entender que posso querer e não ter
Ver que a vida é só ilusão
Saber que de nada me serve a razão

Lançar-me a cama com uma meretriz
Fazer de mim mesmo o juiz
Trancar a porta do meu labirinto
Deixar que meu guia seja o instinto

Encontrar o País das Maravilhas
Trocar dinheiro por um saco de ervilhas
Ver um príncipe encantado
Voar sobre os montes em um cavalado alado

Todas as fantasias a loucura me propõe
Deixa-me livre, como a vida supõe
Gozar da vitoria antes da batalha
Coisa qualquer que para mim valha

Doce e promiscuo é o delírio
Belo, como um vale de lírios
Sinuoso como o desejo
Irritante como um cotejo

A insanidade é o bem da alma
Que em mansidão, cura a tormenta
De forma indolor e lenta
Devolve-me a calma

Libertar-se em devaneio
É encontrar um frágil meio
De sofrer sem se calar
E a vida suportar
"A sociedade expurga qualquer traço de intelectualidade"
Thaís Milani

Desafio


Vou mudar alguns conceitos
Sei que são bons sujeitos,
Mas precisam melhorar
Vou matar-me em desejos
Lançar-me sem desespero
Aproveitar por inteiro
Ser feliz e cantar.
Cansei-me de dar respostas
Infinitas e mesquinhas
Não quero mais ver as vizinhas
Não quero mais ter que odiar
Pensando alto, sem tolice
Vou fugir da mesmice
E se tudo ocorrer bem,irei para não voltar
Correrei livremente
Abrirei minha mente
Não deixarei nada escapar
Quebrarei a corrente
Brincarei com uma serpente
Dançarei até sentar
Vou amar alguém estranho
Trocar a tinta de castanho
Vou rir até chorar
Acordar às seis da tarde
Sem fazer nenhum alarde
Para casa não retornar
Não farei dieta
Não andarei em linha reta
Pensem o que pensar.
Cometerei algum delito
Armarei algum conflito
Só para me excitar
Vou andar desnuda
Tornarei minha alma muda
Perderei a expressão sisuda
Que me forçam a ostentar
Vou brincar como criança
Alargarei a esperança
De um dia poder voar
Conseguirei ter certeza
Falar com firmeza
Aprenderei a orar
Roubarei um carro forte
Enganarei a morte
Com benção e o com sorte
Poderei todo dinheiro gastar
Solenemente grito
À contra gosto admito
Com o coração submisso e aflito
De nada me serviria isso... Se no fim eu não AMAR.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Epopéia do Amor


Hoje vos apresento; o sentimento mais nobre.
Tão forte quanto ouro e ferro
Mais denso que prata e cobre
Supre a alma e os pulmões, longe de tal, o homem morre.

È curioso pensar que o medo, por vezes o espanta
Algo tão puro e sublime.
Carece de alma santa?
Se quiseres manter-se sã, jamais o subestime.

Sentada a olhar o mar, repousa a moça feia
Abdicara amar? Ou tomaram-lhe em peia.
Não sofras minha querida, assim é o amor
Desgostoso ato dócil, que preenche a alma de dor.

Céus como queria... Poder lhe confortar
Em bravura e covardia, ateá-la dentro ao mar.
Bem sei eu que morreria, morte digna de moribundo
Se não amasse como amo, alguém neste meu mundo.

Amar é doce deleite, de uma alma empertigada
Procura quem o aceite e faz de ti sua morada.
O simples ato do “sim”, não somente uma atitude
Amar sem ver o “não”, é amar em plenitude.

Moça feia do meu mar.
Moça bela do meu coração.
Quisera eu fazer-te amar
Quisera eu tomar-te a mão

Não, não sou moço galante
Só procuro por uma alma pura,
Que me queira como amante
E eu esqueço a feiúra.

Juras, não lhe prometo. Sei que posso não cumprir
Em teus braços me intrometo, para fazê-la existir
Só compus este poema, para que me ouvistes.
Tantas vezes, sem dilema, me olhou e não me vistes?

Indecoroso e doloroso, assim é o amor.
Vívido e presunçoso lança a alma em tormento
Duas desta dor eu sinto, se para amar-te for.
Se existo e se respiro, é por nutrir tal sentimento.

Jurar-te-ia amor eterno, se pela eternidade viveria
No entanto só te juro amor terreno, onde sei que cumpriria
Amar-te minha dama, torna-me cavalheiro
Agrega-me em outra metade, torna-me inteiro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Monte


O vento ateava de leve
Uma vida a transpassar
Sublime água escorrendo breve
Moço, corpo e alma a vaguear

De longe sinto o sopro
Romance entre a fada e o ogro,
Éreis tu o pássaro a voar
E eu o peixe no mar.

Éramos sós em siso
Tilintar de moedas, não viso
No vácuo não há o ar
Tomou-te a extenuar

È difícil compreender
A dama negra derradeira.
Lançado em precipício ver
Tormenta e cegueira.

Permaneces ou vais
Saberia eu... Jamais.
Prossegues ou regresses
Aclamo em angústia nossas preces.

Os olhos se tocam.
Um beijo indolor
Do fôlego exalam
Vida e amor

Paira no ar
A doce ilusão
Um dia reencontrar
D’alma a paixão

O calor esvaece
Sofro absorto
Deixara o corpo
A vida perece.

Ser ou não ser?
É questão de aventura.
Ser é viver,
Não ser é loucura.

A insanidade sã
Da mente aflita
A morte da alma irmã
Que o sofrimento extirpa

Vá... Óh, bela ave. Liberte suas asas
Atravesse nossa ponte.
E alce voo sobre o monte.
Que entre a morte e a vida perpassa.

Asas de esperança
Com leveza se exibindo
Derramam felizes lembranças
Daquele tempo bem vindo.

Onde fôlego que longe andas
Habitava o peito vívido
O mar deleitoso de ondas
O céu puro e límpido

Vai ao longe
Além do monte
Chamasse o monge [tardiamente]
Vives agora em minha mente.

Passe dos montes
Faz e desfaz
Afasta-se aos montes
Livre em paz.

O monte, ao longe
Ao longe, o monte
Foi-se a vida e o monge
Jaz morte amor, descanse no monte.

domingo, 11 de julho de 2010

Homem Invisível



Os sons altos e arfantes
As ruas inundadas;
Domicílio de mendicantes

Dentre tantos ruídos
tem-se um destaque,
no meio dos diversos sotaques.

O choro grave e circular
de seres ditos humanos,
que nascem e morrem sem lar.

Os semblantes aflitos
nos rostos imundos
Vagueando veem marias, joãos e raimundos.

Assentados no frígido chão
Auferem calor de um frágil jornal,
Exprimindo em seus corpos a tragédia semanal.

Seres quietos e doentios
Braços alarmantes e galgazes
espíritos carentes e vadios

Diante da sociedade consomem
vivem em alcatéias;
“o homem é o lobo do homem”

Sorrisos reluzem enegrecidos
Impolidos e esquecidos
pela ausência do uso

Á noite a morte é lenta,
o frio agrega e desagrega
Não vive, contudo, tenta.

Há fome e choro,
Há cadeia e roubos,
nas ruas a morte, vem do estouro

Não importa o quanto ames
o ódio sobrepõe-se
Não há família, pais ou mães?

As mãos estendidas
não buscam riqueza, tão pouco ouro
Serem ao menos vistos, é seu tesouro.

As mãos juntas
É apenas o grito estridente,
de gente, que quer ser gente.

Os olhos lacrimejando
São só vestígios
da humanidade se enfastiando

Os olhos contraídos
São sintomas da dor
que aflige o espírito e mata o amor.

Os pés encolhidos
diminuem o ser
Se tornando invisível, a perecer.

Os pés calejados
de tanto caminhar
à procura no sol, de seu lugar.

A alma... há muito se foi,
Vagando na cidade
Lançou-se em liberdade.

Em um dia chuvoso
o corpo se vai
Descendo ao chão, esplendoroso.

O choro se cala, abaixo da terra
completa-se a invisibilidade,
Acabou a guerra.

Em um dia de ais
o corpo se vai
As mãos algemada, pendidas para trás.

Na cela apertada o choro se perde
entre tantos outros esquecidos
Invisível o homem, desfalecido.

O grito silencioso da cidade,
discreto entre o caos
_Perdeu-se o amor e a caridade.

O grito silencioso da cidade,
parte do homem invisível
_Morte da sociedade?

O grito silencioso da cidade
vem do fim deste homem
_Perdeu-se a humanidade!

domingo, 4 de julho de 2010

HINO DOS BRASILEIROS


Ao ouvirem do Ipiranga
Na bela margem plácida;
A doce liberdade
Tornou-se ácida.

O brado estrondoso a soar,
Hoje é o grito estridente.
Vindo de um povo heróico
Que trabalha arduamente
e vê tudo faltar

Por um segundo de esplendor
mergulhou-se o povo na escuridão?
Quem vê do céu o brilho?
Se na mesa falta refeição.
Vê-se apenas dor
Que lhe aflige o coração

Nossos bosques têm mais vida,
Nossas várzeas têm mais flores
Mas o povo vive as mínguas
Numa terra de horrores.

O penhor desta igualdade
que nunca de fato existiu
Na pátria amada,
[idolatrada]
Pelos grandes, desamparada
BRASIL.

Conseguimos conquistar com braço forte
A violência que em demasia nos atinge
Ao cismar sozinho à noite
Desafia o nosso peito a própria morte
Nossa gente não vive, finge.

Salve!Salve!Por favor.
Esta minha nação,
que sofre com a dor
E dela se embebedes a grandes sorvos.

Salve!Salve!Por favor.
A minha pátria
É o clamor,
dos filhos do solo de mãe gentil.

Ouça este bramido, Brasil.
Teu povo esbraveja enfadonhamente
Que se erga a justiça
Que lance fora a imundícia
Que se restaure a ordem ligeiramente
Deste colosso, Brasil.
E que o progresso nos alcance rapidamente



Brasil, um sonho intenso
e uma realidade irrefreável
Teu futuro espelha esta grandeza?
Se não houver de ti bom senso
de nada lhe serve a beleza
E se tornas cada vez mais irreparável.

Gigante pela própria natureza
E pequeno pela inópia de destreza;
O lábaro que ostentas estrelado
Vê-se por nós, alquebrado.

Sua terra tem palmeiras
Onde canta os sabiás,
que com sua melodia suave
Trás ao seu povo paz

Embora aos poucos a bela ave
torna-se fugaz
Voa para longe e aqui não jaz
O teu seio entristece
e seu povo mostra-se menos vivaz

És a terra mais garrida?
Se em teus risonhos lindos campos,
[dispersam-se as flores]
Vê-se secar do peito os amores
e a terra torna-se árida.

E diga ao verde-louro desta flâmula:
_ Paz no futuro e glória no passado!
Óh, Brasil!Não vistes que estás desprezado?
E teu “esplendoroso” passado
Estas por hora, entorpecido
Faleceu o raio vívido?

És belo! És forte!
Nem teme quem te adora, a própria morte.
O que lhe vem a faltar
É alguém humilde, de pulso firme;
que possa lhe governar

Deita eternamente em berço esplêndido,
Teu povo sofrido?
A luz do céu profundo ao som do mar?
Não há nisto verdade
Se muitos não tem ao menos onde repousar.

Brasil, onde tu de fato estás?
O teu povo te busca e te anseia
Será que te encontrarás?
Estás no âmago escondido?
Jaz por onde perdido?

Queremos ver, resplandecer!
Sobre ti a luz
Queremos ver, reviver!
O país de alma jus.

Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil.
Óh pátria amada
Dos filhos deste solo de mãe gentil.

Não permita, Óh Deus! Que eu morra.
Sem que veja renascer
Aquela terra de primores
que uma dia o Brasil deixou de ser;
Aquela terra de amores
que não deves padecer.

Salve! Salve! Por favor.
O BRASIL!
É o clamor
Destes filhos de solo de mãe gentil!
BRASIL...BRASIL!
És tu nossa paixão, dentre outras mil.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Santíssima


Santa luz da Ignorância
Sobre a treva jaz
Espúrio lar da astúcia
Monarca da ilusória paz

Transborda-te em doce deleite
Incisa de sabedoria
Aguardas por quem te aceite
E satisfaz-se em tua orgia

Ignorância da terra minha
Envolves com tanto ardor
És tu erva daninha
Causa asfixia e dor

O mal da víscera humana
no acaso vagueias
cobres a envergadura profana
tornas as mentes estreitas

Aquele que a ti se entregas
Lançasse a profundidade
A luz teus olhos cegas
Embevece a integridade

Se de fato esqueceres;
O que é Estupidez?
Deflagra os saberes
Faz dos erros Reis.

Vasto império do que amam,
Estar à vida, alheio
São bondosos os que te avocam
E maldito eu que te odeio?

Sabes tu exatamente
o que a Treva faz?
Decrépita sutilmente
Liberando de ti os ais.

Sorte lançada ao vendo
É o medo que a trás?
Padeço por ti neste momento
Peço que descanse em paz.

Éreis tu flor tão bela
Seleta em meu solstício
Retirara de ti a chama da vela
Laçou-a em precipício

Celestialmente pairou,
no céu, a flor sabedoria
O homem quem a matou
deixou-a defronte a artilharia

Os arrojos corromperam as asas
De cor, branco puro sublime
Jamais voltarias às casas
Lançada a morte, que a subestime.

Com perjúrio lamentoso
Via-a partir;
Pareceu-me indecoroso
Ver deixá-la de existir

A Santíssima sabedoria
neste momento se despedia,
alçava um voo eterno
Indo ao longe deste inferno.

Seu sepulcro lacrado
Recolheu toda luz;
Enegrecido mundo alado
Escuridão à alma jus.

Sucumbiu a sabedoria
Consigo levando a humanidade
Se na Ignorância esta viveria
Pereceria de insanidade.

Ensaio do Édem


A terra, hoje sem nome
é o lugar onde caminhou
O fabuloso animal homem
nela livremente andou

Era um mundo sem fim
de lindas criaturas,
Que em perfeita harmonia
Neste lugar vivia
É onde nasceu Caim
[que matou Abel]
e Eva satisfez-se da fruta
Onde é azul o céu

Sempre abaixo do firmamento
E confinantes do mar
Alastrou-se por ti o pensamento
_ Se há riqueza, por que não explorar?

Detentora de nobreza
Nada deixara faltar
O fratricídio da natureza
Por meio do homem veio a se concretizar

Não compreendes a verdade?
Vou para ti esclarecer
Acabou a irmandade,
deixou Abel de viver.
Guerra no Éden!
Vamos todos perecer.

Caim sois vós
Nossa expressão
Se ficarmos a sós,
matamos nossa essência
matamos nossos irmãos.

Não há como reverter
Semeou-se a discórdia,
não se pode reter;
Deu-se o princípio, chegou a hora.

O Édem sucumbiu
Ele que tão belo era
Aos declívios partiu
Levando em seus braços Eva.

O que dizer do ouro verde
Que hoje escasso se faz;
Se olhares o passado
Verás que descansa sem paz.

E o ouro reluzente
Que tanta morte causou,
Com sua exuberância
Banhado com ganância
Feridas na terra deixou

E o ouro negro
repousa profundamente
como os corpos de tanta gente
Que na Santa Guerra lutou;
Em busca de armas químicas
que jamais se encontrou

De que lhe serviu o mar?
Se hoje o contemplar
Plataformas não mais há
Toda forma de vida, parou de respirar.

Depois de tamanha exploração
O que se há de dizer?
Foram nossas mãos
Que impediram a natureza de viver

Óh, Édem. Por que nos abandonastes?
Estendemos as hastes
Ante, lutemos.
Ou morreremos?
Caim, com Abel falhastes.

A fúria dos ventos
Os tempos de guerra
Choro e lamentos
É o fim da Terra?

Fazendo um presságio
Sobre o que virá a ocorrer,
Se por insanidade, órfãos nos fizer
Desfalece ser, quando a terra fenecer.

Os rios secando
Os mares se expandindo,
O gelo vai retomando
Seu império perdido.

E seja o calor
Venha trazer o inferno,
gerando agonia e dor
Por ausência de amor fraterno

A terra de verdes e mares
por infelicidade sucumbiu
Deu lugar a um deserto;
Uma nova espécie surgiu
não há humanos por perto
A humanidade caiu.

Já não veio a humanidade a parecer
Por ventura, quando deixou o homem de ser
e passou em ter e mente
que só viveria inteiramente
se tudo pudesse ter?

Abel está sepultado
Caim tambem morrerá
Eva, tu és mãe, chorará.
O Édem está afundado.

Não podes tu entender
que veio a terra a padecer
E que os defeitos
Por ti cometidos o fizera ocorrer

Deverias vós se envergonhar
não vistes o que tem feito?
Matastes o Édem,
Quebrastes o elo perfeito.

Por obséquio nos perdoe
por tamanha arrogância
se matamos ti, oh Terra.
Foi por nossa ignorância.

Farei uma ressalva,
nossos olhos devem ver;
Erramos por descuido
devemos nós reverter

Destruímos nosso lar
matamos nossos irmãos,
Dominados pelo granjear
impulsionados pela ambição.

Receio ter sido injusto,
para vós a verdade omitir
Assentirei com muito custo,
O que virá a seguir

Eis que haja luz,
esta se fez;
Homens nus
Feitos de vez em vez.
a terra criou,
Nossa mão desfez.

A luz se dissipou
Expandiu-se a escuridão,
que nossa mente inundou
E extirpou toda razão

Para finalizar
Látego uma reflexão;
Recoloque-se em nobreza
Reacenda o lampião

Édem é a terra
Eva a mãe natureza
Caim quem matou a beleza
[e também a humanidade]

Abel o irmão de guerra;
Contra quem cometeu-se a fatalidade.

Se caso lhe convir
Ouça com atenção
Se a irmandade de Caim não ruir
É a nossa salvação

Pense argutamente
em seus próximos atos;
Não quereres ser tu a serpente
que conduziu tais fatos.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Inocência de alma conspurca?

A par de seu nascimento,
já estava alegre no útero
O pequeno coração em movimento
Sem saber de seu futuro

De um gracejo irreverente
surgiu a criatura;
De feições tão sorridentes,
Alma bela e muito pura.

Neste momento vou fazer,
uma intromissão
Para ouvir esta história
deve abrir o coração
Usar bem a memória
[e a imaginação]

Dando continuidade
Permita –me que lhe diga,
Existe mesmo santidade?
Ou é isso coisa antiga?

A resposta é demorada
E um pouco indecente;
Seria Inocência,
realmente inocente?

A pergunta ficou a vaguear
Devo então complementar
Inocência é a moça,
de quem a história vai falar

A moça era quase perfeita
[disso todos tinha certeza]
Havia também outra convicção,
Nela havia tanta beleza
Que lhe ofuscava o coração.

A doce Inocência
Começou a entender
Que mostrar-se ao inteiro
Era o outro meio esconder

Admiro-lhe a bravura
e acrescento-lhe uma missão
Poderia Inocência
mostrar seu coração?

O homem é tão injusto
e desumano se faz;
Ao ver somente o que está por frente
E o que está atrás
[esquecendo]
Fazendo com que a menina inocente
Vá se perdendo,
e aos poucos fique para trás.

Seria este o fim da narração?
Perder-se-ia Inocência
ao mostrar o coração?

A valentia da moça
aos baldões foi se perdendo;
Ao mesmo passo
Sua inocência ia se esvaecendo.

O destino de Inocência
Torna-se em demasia arriscado
Quando outro caso, ao seu é adicionado;
Seu protagonista
é chamado de Pecado

Pecado é um rapaz
que despensa descrição
Sua principal característica,
É causar a tentação

Seus braços são acolhedores,
Suas palavras convincentes
A faceta de horrores,
Perde-se nas almas ardentes

Estava Inocência a caminhar sozinha
Buscando companhia
Encontrou-se com Pecado,
sentado a olhar o chão
Sentiu nos pulsos desejo,
e tomou-lhe pela mão

Visto somente a mal grado
Infortúnio e a abastardo;
À Inocência todos diziam:
_Afaste-se do Pecado.
_Moço errôneo com caminho errado.

Inocência não se deixou,
por estas falas levar;
Nos braços de Pecado
Acabou por se refestelar

Passou Inocência a ter
Pecado como amante
Poderia ela crer,
que um moço tão bom a seu ver
Era mesmo um farsante?

Não se sabe ao certo
se era amor de verdade,
Uma vez nos braços deste,
[Deleitando-se na felicidade]
Não havia mais resgate.

Era o pecado perspicaz
Com sua mente sagaz
Aos poucos foi tirando
de Inocência sua paz

Agora é o momento
de intervir novamente;
Esqueça qualquer julgamento
E pense calmamente
Nos braços do Pecado,
que te espera calorosamente

Não me venha dizer
[por obséquio]
Que nunca houve um circunlóquio;
Entre sua alma a estremecer
e um pecado satisfatório.

Pois é bem verdade
Na arte do ajuizamento,
que partiu a santidade
Do coração em movimento?

Vou contar-lhe um segredo,
Que talvez não lhe convenha
Alma bela e muito pura;
É provável que ninguém tenha!

Devo por hora me calar,
antes que te ofenda
Ninguém quer ouvir falar
Do pecado que te atormenta;
Pois é muito simples julgar
e por nos olhos uma venda

O esplendor e a beleza de sua juventude
Eram expressos por um largo sorriso,
possuidor de grande magnitude.
Sois mais belo que as flores campestres
Na arte da mediocridade vós sois mestre

Em sorvos foi se embevecendo
Inocência de Pecado
Seu coração embriagado,
Aos poucos foi desfalecendo
E seu encanto, se perdendo.

Sois tu [Óh Pecado]
Para Inocência pior que a peste.
Lhe infecta a alma
e a beleza celeste

Roubai-vos o belo coração
Tomou para ela imperfeição
Entregando-o no altar
O altar da tentação!

E a alma de Inocência,
que era flor delicada;
A partir da displicência
Tornou-se infectada.
Sua alma se faz só
Pelo coração abandonada

Mas de fato se pensares
não era este, grande problema
já que todos os olhares
se concentravam só no emblema.

Praticamente chegando ao fim,
da longa narração
Pôde-se perceber
Que ninguém vê o coração;
dizer sim ao Pecado
É o mesmo que dizer não.

Vou terminar
Com os seguintes versos:
Seria Pecado,
realmente perverso?

Desculpe-me,
pois não achei o bastante.
Por isso devo eu,
Levá-lo a diante.

Seria Inocência,
realmente inocente?
Seria o Pecado,
um mal tão incandescente?
Ou seria somente: a natureza humana,
que possuí a alma profana?

Por fim devo dizer
que resposta não hei de dar
Mas, deixarei sua mente livre.
Livre para se explicar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Início

Como se tudo fosse uma grande aventura
O medo quer me parar,
Estou ficando para trás
Eu não posso caminhar.

Na inércia inerente do refúgio
Em um paradoxo intenso e infernal
O fim chega como em um carnaval.
Não há mais estradas a serem percorridas

Estou preso em uma ilha, cercada por um rio
Perguntas retóricas, pensamentos por um fio
Mãos e pés gelados, coração aflito.
Os olhos dizem o que já estava escrito
Isso não era o fim, era apenas o inicio.

O espelho

Frases se fazem palavras soltas
Sorrisos para encobrir a verdade.
A capa da mentira visto;
Com medo da realidade
Quando você está perto, me faço metade
Quando você está longe, não existo.

Um grito se perpetua no vácuo
mas, não pode ser ouvido.
Sua sombra surge em meio a noite,
apenas outro sonho que não pode ser vivido.

A agonia está muito mais em esquecer,
do que em lembrar
Seus olhos estão tão perto,
mesmo você estando tão distante
Um sorriso amargo surge e se vai no mesmo instante
Caminhando a passos lentos, para no céu entrar;
Acabo por intermédio no inferno chegar.

Muros surgem ante a mim
Impedindo-me de te ver
Agarro-me a tudo que me restou
a vontade de te ter.

Sorrateiramente os muros viram espelhos,
Dando-me a visão
de um homem triste, velho e impuro
Com pulsos cerrados, ao chão.


Seu grito estridente
não pode jamais ser ouvido
Depois tanto gritar em vão
de seu rosto desprendem-se lágrimas
Que aos poucos formam um grotão.

Mas que medo teria de tanta solidão?
Se a fonte que se forma nos olhos,
provém do coração.
A imagem de um anjo emerge no espelho
Trazendo-lhe mansidão
Apaziguando o coração faminto,
que agora jazia no chão.

Seu anjo não possuí asas
Pois humano se faz.
Representante de um amor,
que agora descansa em paz.

A maldição da morte
Foi quem roubou
O anjo humano do homem,
e no inferno o deixou.

O grande espelho da dor
começou a desabar.
Cacos contra o chão.
A imagem do homem a se desintegrar.

O velho coração faminto
aos poucos foi se calando;
Como em dança, no compasso
os olhos foram se fechando.

O choro se tornou indolor
O corpo se fez vazio
O rio de lágrimas secou;
A alma voou.

Era a despedida silenciosa

Era a ausência do grito

O homem que tanto amara,
e o amor havia perdido
Agora se juntara
Ao anjo que havia partido.


Thaís Milani